O programa Consultório na Rua - Modalidade III, implementado pela Prefeitura de Montes Claros, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, tem como principal objetivo levar serviços de saúde a pessoas em situação de rua na cidade. Hoje, a iniciativa alcança cerca de mil pessoas por mês, oferecendo cuidados no âmbito da Atenção Primária à Saúde.
O programa opera com duas equipes multiprofissionais compostas por uma variedade de profissionais preparados para atender as demandas da população alcançada. Essas equipes incluem dois enfermeiros, dois técnicos de enfermagem, dois médicos, três agentes sociais ou agentes comunitários de saúde (ACS), um psicólogo, um assistente social, um dentista, um auxiliar de consultório odontológico e dois motoristas. Além do atendimento cotidiano, as equipes realizam avaliações periódicas para monitorar resultados e estabelecer novas metas que aprimorem os serviços oferecidos.
Dentre as ações desenvolvidas, destaca-se a aplicação do Implanon, procedimento realizado na manhã dessa terça-feira (23). Esse pequeno implante subcutâneo de 4 cm, inserido no braço, libera o hormônio etonogestrel continuamente por até três anos, funcionando como um método contraceptivo reversível de alta eficácia. A iniciativa teve como foco principal mulheres em situação de alta vulnerabilidade social, assegurando-lhes acesso a um planejamento reprodutivo seguro e humanizado.
Andréia Aparecida Barbosa, enfermeira responsável pela coordenação do serviço, ressaltou a relevância de disponibilizar métodos contraceptivos modernos, como o Implanon. Segundo ela, trata-se de uma alternativa de longa duração e eficácia superior a 99%, tornando-se fundamental para mulheres em situação de rua. Ela destacou que garantir dignidade e autonomia reprodutiva a essas mulheres é um passo essencial para promover uma sociedade mais justa, com oportunidades iguais para todos.
Para o médico de família e comunidade Dr. Alberth Neves dos Santos, que desde 2018 dedica-se ao atendimento de pessoas em situação de rua por meio do Consultório na Rua, a pessoa em situação de rua enfrenta desafios extremos diariamente para garantir sua sobrevivência. Vivendo com uma expectativa de vida reduzida e em condições muitas vezes comparáveis a cenários de guerra, eles sofrem com uma realidade que vai muito além do estigma associado ao uso de drogas. Alberth destaca a importância de considerar a complexidade de suas vivências e superar preconceitos. Nesse contexto, o Consultório na Rua assume um papel fundamental ao facilitar o acesso à rede institucionalizada, oferecer cuidados integrais e fomentar a criação de laços sociais. Ele também se configura como um espaço concreto para a garantia de direitos e o fortalecimento da cidadania de pessoas em situação de exclusão social.
Pablo Henrique, conhecido como Priscila ou Pablete e que vive nas ruas há anos por escolha própria, elogiou o trabalho desenvolvido pela equipe do Consultório na Rua. Ele ressaltou a atenção recebida: "Essa equipe é maravilhosa e cuida da gente em tudo que precisamos, oferecendo desde atendimento médico e psicológico até alimentação, itens de higiene pessoal e preservativos", afirmou.
Gabriela "Nobreza", que vive em situação de rua há mais de 20 anos e explicou que escolheu esse estilo de vida por amar a liberdade, fez questão de elogiar a equipe do Consultório na Rua. “Toda a equipe merece uma nota dez, ou melhor, nota onze, a nota do Romário (ex-jogador). Se não fosse pelo trabalho do Consultório na Rua, estaríamos em uma situação muito mais difícil”, disse Nobreza.
Sheila Alves Pereira compartilha a mesma opinião. Para ela, o Consultório na Rua é a salvação, destacando o imenso carinho que todos da equipe demonstram pelas pessoas em situação de vulnerabilidade. “Esta equipe do Consultório na Rua é uma gracinha: médico, enfermeira, psicólogo, enfim, toda a equipe é uma maravilha”, acrescentou Sheila.
Para o José Inácio Júnior, morador em situação de rua, “o trabalho deles é bom. É saúde. A gente mora na rua e precisa, porque a gente não tem condições de ir ao médico. E nós precisamos. Às vezes cortamos um pé, uma mão, e eles vêm e cuidam da gente”.
Wesley Pablo Alves Pereira, que está em situação de rua há seis anos após um conflito familiar devido ao uso de drogas, também considera o Consultório na Rua uma verdadeira tábua de salvação. Ele ressalta o excelente trabalho realizado, que vai além do atendimento médico, oferecendo suporte assistencial essencial para quem vive nessa realidade.
Bruna Thaisa de Jesus Ribeiro conta que vivenciou uma reviravolta em sua vida aos 12 anos, quando foi forçada a viver em situação de rua após ser expulsa de casa pela mãe, que tinha ciúmes dela com seu padrasto. Hoje, com 33 anos, ela alega que “comeu o pão que o diabo amassou” por pessoas mal-intencionadas no seu percurso. Ao longo deste tempo, Bruna aprendeu a se adaptar à convivência com outras pessoas em situação de rua, construindo vínculos baseados no respeito mútuo e demonstrando firmeza quando necessário. Sempre cuidadosa com sua aparência, ela não abre mão de seu batom, esmalte e pente, itens que considera essenciais em seu dia a dia. Bruna também expressa uma profunda gratidão pelo trabalho realizado pela equipe do consultório na rua, que tem sido um importante apoio em sua trajetória.
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